Que eu não precisava mais dela...
Pelo véu das noites frias de inverno, meu passado me caçava, tão brutalmente quanto eu a uma vítima de minhas presas.
Nunca dei importância a gritos roucos de pavor e pedidos de socorro, nem a nenhuma de minhas vitimas. Não eram meus amigos nem conhecidos, eram apenas sangue, sangue que jorrava, eram veias latejantes... para mim isso é o que importava.
A rua estava escura...
Só estava eu e a jovem na porta de uma igreja, ela estava indo para casa quando eu a surpreendi, ela perguntou com uma voz tremula:
-O que você quer?!Minhas jóias? Meu celular?Responda!
Segurando-a por traz, lhe abracei e respondi delicadamente:
-Pelo véu das noites frias de inverno... Far-lhe-ei companhia, não machucar-lhe-ei, não lhe farei sofrer, estará segura neste pouco tempo de vida, será rápido e indolor...
Quero seu sangue...
Eu estava tão perto de matar minha sede, não que eu estivesse com raiva de mim, mas aos poucos fui notando... Aos poucos, aos poucos...
Que não passo de um monstro
Dèvha Monn had
Eu, satisfeito, fui para casa sem olhar para trás, precisava falar com alguém sobre como havia me sentido naquela noite...
Falar sobre arrependimento...
No meio do caminho olhei para uma casa onde havia uma menina na janela. Cumprimentou-me.
Ela devia ter uns dez anos. Era tão pálida quanto eu, seus cabelos tão negros quanto aquela noite, lábios tão vermelhos quanto sangue.
-Meu nome é Dèvha Mon Had, senhor. Eu tentei dormir, mas perdi o sono.
Aproximei-me da sua janela e perguntei:
Permite-me aproximar?
Era doce, estava linda... os lábios vermelhos me responderam com um sorriso triste... E eu perguntei:
-Se eu contar-lhe histórias de noites frias de inverno, magníficas paixões interrompidas pela morte e sentimentos de arrependimento,
Promete-me que voltará a dormir?
Ela deu-me um beijo depois que contei um pedaço de minha história, Seria um beijo de despedidas? Era tão meigo, era marcante, seu cheiro... Ficou em meu rosto...
...Uma parte dela eu levei comigo... e uma parte de mim...
Ficou com ela...
Vampiros à luz do dia
È incrível saber que não há apenas humanos à luz do dia. Nós vemos pragas vampirescas nojentas como sempre, caminhando normalmente por entre pessoas comuns...
Eu trabalhava em um cinema perto dos parques da cidade, por diversão...
Trabalhava entregando os ingressos, depois disso eu optava por ver ou não o filme... Eu ficava olhando as pessoas passarem, crianças mimadas, idosos emotivos, adultos ranzinzas, adolescentes imaturos, apenas sangue...
Conheci um garoto chamado Rodofre, ele tinha vinte anos... dentre muitas pessoas, resolvi me entregar mais uma vez, para alguém que supostamente poderia ser meu amigo.
Ele era meu colega na minha milésima faculdade, eu o escolhi e ficamos grandes amigos.
Na verdade tenho apenas a mim...
As ruas estavam agitadas, pessoas iam, pessoas vinham, e eu sozinho, vagando como se fosse para todo sempre.
Era dia, mas em meu peito eu guardava algo que me fazia sentir...
Na companhia da escuridão...
Noite de sexta feira
Eu estava descendo as escadas de minha casa, com um castiçal na mão, foi quando eu vi que o chão estava molhado, seria uma goteira?
Não, era Beatriz, minha prima, a única da minha família salva dos braços da morte, salva por mim do grande incêndio que matou toda nossa família.
Beatriz havia derramado um copo de água...
Ela queria companhia, mas não queria mais a minha, estava cansada, de tudo e de todos, lembrei-me de que eu já havia passado por um momento assim e disse:
-Eu estou aqui querida, para lhe consolar, para lhe fazer feliz.
Puxando um lenço do vestido ela respondeu:
Não preciso de você, não preciso de ninguém. Preciso é de mim, preciso me encontrar na escuridão que criei.
Aí então, me dei por conta de que eu estava tão preso quanto ela, e caia na mesma velocidade e ao mesmo tempo no abismo mais profundo e sombrio que os humanos nunca conhecerão...
Eu não precisava mais disso, nem ela...
-Prometo por todos os caminhos que cruzamos, por todas as pessoas que conhecemos, prometo, prometo que vou salvar nossas vidas desta guerra de vermes sedentos de sangue... Prometo por mim e por você... Se sentirá melhor querida.
Ela retrucando respondeu:
Mas como você fará isso, se és tão frágil quanto eu?
Virei as costas, mas fiquei com aquela pergunta na cabeça, batendo feito um sino. Sabendo que eu não responderia, ela disse:
-Estou acostumada com o silencio e você com perguntas sem respostas.
Nunca gostei de relatar as mortes noturnas que causei, prefiro não dizer o que houve naquela noite depois que saímos de casa...
Caso esteja ansioso para saber sobre desastres, só espero que seja compreensivo...
O desabafo de sábado
Estavam todos na faculdade conversando sobre coisas que não são de lá muita importância e eu perguntei a Rodofre:
-O que você faria se visse alguém morrendo aos poucos? Um assassinato, você me compreende?
E Rodofre escrevendo na classe enquanto o professor não estava respondeu:
-Eu faria o que muitos fariam, impediria ou sairia gritando feito um demente apavorado, é assim que as pessoas reagem a coisas deste tipo. Sabe... às vezes acho você muito engraçado, tem jeitinho de escritor, deveria escrever histórias... sei lá.
Retirando suavemente o lápis dele, respondi:
-Eu as conto para desabafar tudo o que sinto e o que eu passo, e você, não contaria as suas para mim?
Então as suas histórias são reais? – perguntou Rodofre enquanto batia um pé no chão.
Eu disse:
- Todas as noites que o monstro sai de sua luxuosa casa, todas elas são reais.
-Então... - mal podia falar Rodofre, do jeito que era, assustado.
E gritou de uma maneira que todos ouviram – Você é um vampiro?! – Voltando a cochichar disse – Me desculpe, mas é difícil acreditar... - e um pouco nervoso perguntou - e você teme alguma coisa? Alguém que descubra o que você é?
Eu respondi:
-Temo o tempo, temo a vida, temo as pessoas que podem me machucar sentimentalmente... até a mim, assim como todos aqui nesta sala temem.
Ele paralisado retrucou:
-Mas, mas... E suas histórias? Eram tão lindas.
Então eu disse:
-Tudo que eu lhe disser vai parecer especial, aventureiro, mas não passa de pesadelos, fuga e perseguição.
O desafio de Dèvha Monn Had
Na calada da noite andei a procura de satisfação, Eu estava com sede, havia aumentado de uma maneira que eu nunca tinha visto. Passando pela mesma rua em que vi minha bela Deváh, ouvi um sussurro baixinho e preocupado:
-Senhor, venha contar uma de suas histórias para eu dormir...
Eu estava caindo de tentação, precisava caçar alguém rápido e violentamente, mas não, não aquela doce menininha, eu me aproximei e ouvi mais baixinho ainda:
-Rapazinho levado você, o que está fazendo aqui? Está tudo bem com você?
A menina abriu mais um pouco a janela e esperou que eu entrasse, ela viu que eu não estava muito bem...
Cai no chão, me sentia como se estivesse sem ar, para morrer, eu poderia matá-la, mas ela se ofereceu primeiro... Bebi um pouco de seu sangue quente então ouvi gritos abafados:
-Não, não! Por favor, pare! – Voltando a falar baixo ela disse – Agora já está doendo, senhor...
-Me perdoe – eu disse deitando ela na cama – pode descansar agora - a tapei até o pescoço e disse – Vai sentir um pouco de sono, em troca de seu sangue lhe darei minha proteção, cuidarei de você apartir de agora.
Eu estava tão triste que foi difícil reconhecer amor diante de tanto sofrimento, ela não precisava de mim, mas eu precisava dela.
Sem esperanças fui para casa pensando:
O que eu me tornei? Por que eu me tornei?
Onde estão meus sapatos
Acordei de manhã e não encontrei meus sapatos favoritos, então comecei a percorrer a casa só de meias. Não estavam em nenhuma das salas, nem na cozinha nem em nenhum dos quartos,... Onde estariam?
Eu precisava deles e eles de mim, a janela estava aberta, pensei que era o vento.
Os pássaros cantavam e eu os ouvia, a manhã estava fria.
Então um cachorro preto entrou pela janela.
Foi fazendo carinho nele que vi que ele estava ferido, gelado, uma temperatura anormal para um animal tão peludo.
Ouvi uma vós dizendo:
-Ele é meu guia.
Foi quando eu vi um menino com os olhos brancos, sentado em um banco de jardim perto das roseiras.
Havia uma menina também, duas crianças de olhos brancos, vestidas com roupas de bonecos, E eu ali, paralisado com aquela situação...
Eram assustadores, mas tão lindos, pareciam serem cegos.
A menina era um Louvomine, um lobo, um demônio que comandava o corpo, eu reconheci isso rapidamente, e o menino era um lobo também? Fiquei em dúvida...
Isso é o que eu iria descobrir.
-Devolva meus sapatos! – Eu disse ao menino que estava com eles nos pés.
-São quentes, são meus e não devolverei sapato algum senhor, você os perdeu. – ele disse.
Abri aporta para eles, e esperei que eles não procurassem roubar mais nada que era meu, minha prima e eu os demos comida e água.
-Se derem um teto para que possamos dormir bem esta noite, devolverei seus lindos e quentinhos sapatos – disse o menino.
Neste mesmo dia
As rosas murcham e o meu coração arde, o tempo sussurra em meus ouvidos e meus olhos fecham, de minuto a minuto eu pareço cair de joelhos sobre pegadas de momentos impuros.
A falsidade me atravessa como uma flecha, ela está em busca de uma morte lenta e dolorosa, mas eu vou detê-la e espantar todas as coisas ruins que ela me dera até agora.
Na faculdade, mostraram em uma palestra religiosa sobre o mundo, que o sofrimento só atinge os que querem ser atingidos. Resolvi fazer diferente depois disso.
Rodofre sempre conversava comigo, sobre coisas fúteis de mortais.
Comecei a ver que essas coisas eram de extrema importância para ele, resolvi jogar ping pong, entrar num vestiário feminino, agir como ele.
No começo achava diferente, mas depois fui me acostumando e dando mais importância... Era estranho como os vampiros reclamavam de poucas coisas para se fazer. E os homens de muitas coisas.
O pior de tudo é que muitos homens me imploram para virarem vampiros, e eu nunca deixei, sabendo que era pior do que morrer.
São tolos, são todos tolos, e eu também fui tolo quando aceitei virar um ectoplasma vampírico.
Libertei-me finalmente?
Será que estou pronto para aceitar acabar com minha eternidade, acabar com o encanto, acabar com tudo o que me perturba?
Acho que sim... Mas isso vai levar um tempo, pois para acabar com o encanto preciso usar forças cujo quais nem sei de onde tirar.
Neste mesmo dia fiz uma visita a Dèvha Monn Had, eu conheci os pais dela e disse que era vendedor de doces, eles precisavam se mudar, mas o que seria de mim sem todas aquelas noites em que eu contava-lhe uma história para dormir?
A última noite
Ela entristecida, chorava, e eu dizia:
-Pequena, não chore. Estarei com você todas as noites mesmo longe, espantarei seus fantasmas e todas as suas forças se unirão as minhas.
Ela limpando as lágrimas me perguntou:
-Mas promete que um dia nós ficaremos juntos para sempre?
Então eu disse:
-Sim, eu prometo minha criança... eu prometo...Por muito tempo...
Às vezes tenho vontade de me encolher a procura de um canto escuro para me escorar, mas nesta calma noite eu deveria ser forte... Fico pensando em algo que um grande amigo havia me dito...
Todos nos somos fortes, o que falta é coragem...
Pequena Dèvha, não tenha medo do destino, ele será o que tiver que ser, você será feliz um dia. Eu poderia dizer-lhe estas palavras confortantes, mas ao invez disso eu disse:
-Vou te procurar, vou estar no escurode seus olhos, em todos os reflexos, em cada noite escura virei para beijar seu rosto macio, lhe caçarei feito um rato, onde estiver, estarei, o que fizer, verei e em meus braços você se encontrará de minha ajuda você precisará...
Depois de me calar com um beijo quente no meu rosto gelado que ela me dera, eu disse:
-Eu te amo...
Meu restante mortal lutará contra o meu monstro, se eu ainda tiver um pouco de vida.
Pelo véu das noites frias de inverno...
...eu lhe esperarei...
Temporal
Alimentei-me e fui para casa dormir.
Lá estavam as duas crianças de olhos brancos, o menino costurando a pele do braço da menina com uma agulha grossa, e a menina com uma boneca de pano no outro braço.
Estava tudo calmo naquela sala, até que o menino e o cachorro ficaram com os olhos vermelhos, o menino rasgava a roupa e a menina saiu correndo e pulou pela janela.
Eu assustado, não sabia o que fazer e me dava agonia cada vez que o menino gritava...
Descobri que ele era um transformado, ele era um menino que se tranformava, um lobo diferente dos lobos comuns...
Eu tinha que tomar cuidado, não poderia correr, mas também não poderia ficar paralisado... Eu sabia lutar, mas eu estava tremulo.
Foi ali que notei que eu não era um monstro, eu era como um transformado, sem escolha... Para acabar com o encanto eu precisava de algo que acalmasse aquele menino.
Continua no próximo capitulo
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